Acho que de tanto não falar, acabei por não saber o que escrever. Eu não sei o que dizer, é verdade. Minha opinião, guardei, tão bem quartada que… Cadê?
Bom, na na aula, todos tem algo para falar, algum comentário, observação. Quero dizer, não é que eu não tenha, mas eu me recuso a dizer, a contar, questionar. Enquanto isso vejo e ouço pessoas contando sua vida inteira para no final perguntarem, “isso é normal?” Daí eu me afundo na carteira e penso que a pergunta certa seria: esse comentário foi necessário?
Eu seria a primeira a dizer que não, eu não sei, acho que estou insensível e fria. Sei que, de alguma forma, todo esse processo de contar sua vida para 80 pessoas deve dar uma sensação de liberdade ou algo do tipo, mas à mim: tédio. Isso é normal?
… Não é culpa minha, a culpa é da distancia e da matemática. Ah, eu tenho falado tanto em culpa ultimamente. Mas hoje eu falei menos, comparado ao meu normal não falei nada. Comparado ao que me acostumei quando estava ao seu lado, estou com saldo negativo em abraços. Estou com saudades, amor. E uma angustia capaz de desregular o funcionamento dos meus órgãos E sinceramente, não me importo qual é o hormônio que causa isso. A verdade é que sentimento não é didático, não importa quantos anos eu respire psicologia, a complexidade vai permanecer porque eu aprendi uma coisa, e não foi na faculdade: na prática é outra teoria.
Você diz que eu sou uma menininha criativa e que minha imaginação excede os limites, pode ser verdade, eu sei que é. Quando eu te respondi que as coisas ficariam mais difíceis, naquele dia que você me disse “vamos aguentar isso”, eu garanto que nem no dia mais inspirado dos meus 17, fui capaz de pensar em algo realmente tão, tão… assustador. Nem meus dinossauros, ou o planeta marte causam tamanho temor. É muito cruel pensar em todo o processo, vai ser muito… Ruim.
Enfim, eu não estou reclamando, estou só… Comentando, eu acho. Não tenho muitas certezas, mas uma só me basta, eu creio no Deus do impossível, no Deus que sabe o que faz, e que “tudo quanto o Senhor fizer durará para sempre”.
Ah, e em mais uma coisa: sem lutas não há vitórias.

Muitas coisas ficam despercebidas durante a vida. Meu papel de parede muda a cada 3 minutos, prefiro assim. Passei 3 minutos olhando a foto dos meus pais. Estavam no clube, no baile da terceira idade do ano passado. Embora meus pais sejam jovens, ainda estão no trinta para quarenta. Mesmo assim, com muito custo minha mãe convenceu (verbo que pode ser substituído por arrastou) meu pai para lá. Ele estava morrendo de vergonha por estar em um lugar cheio de velhos e minha mãe distraída, tão bonita. Fiz questão de maquia-la nesse dia, e nem precisou muito. Minha mãe é gata, sério.
Então eu vi uma coisa amarela, atrás do meu pai. Uma mulher com uma blusa amarela, pelo jeito conversava com alguém. Olhei meus pais e olhei-a novamente. Então me lembrei de algo que minha mãe disse no meio de um debate religioso, é claro que fora do contexto da conversa a frase faz sentido: fotografias são para eternizar momentos. Sim, nisso ela está certa, em todo o resto não. E isso me fez pensar… Pensar nos figurantes. Quantas pessoas estão eternizadas juntamente com as pessoas que eu amo? E em quantas fotos e me tornei figurante? Pior são as pessoas eternizadas quando bêbadas, aquele cara que vai cambaleado para o lado que tem um câmera e sai com o olho virado, sem camisa e uma latinha na mão… Triste.
E as pessoas que se tornam figurantes com o tempo, aquela foto do aniversário de 1 ano e a menina pergunta para a mãe “quem é esse aqui?” “Não sei filha, um vizinho talvez, um amigo do seu pai, ou ex namorado da sua tia, não faço ideia.” E ele não é importante? Aquela pessoa talvez tenha puxado o parabéns ou tenha ficado até o fim da festa pra ajudar a arrumar a bagunça. Quantas vezes esse desconhecido pegou sua filha no colo? Não pode ter sido quem deu boneca que ela mais gostou? Mas ele foi esquecido. De quem é a culpa?
A culpa é dessa mulher que resolveu sentar-se na mesa ao lado e sair na foto sem perceber? A culpa e de quem fotografou? Alguém é culpado, e eu quero saber quem. E não aceito que a resposta seja “o tempo”. Não, sem essa! A geração da tecnologia não consegue processar respostas tão abstratas. Quero o culpado e quero provas. Bem, eu acho que não, não é isso que eu quero… O que eu quero mesmo, com todas as minhas forças, é um abraço dos meus pais.

De repente no ônibus me dou conta: eu já estou aqui? É tão desesperador. E o sol de fim de tarde batia, minhas lagrimas caiam, e duas crianças dormiam no colo da avó ao meu lado. E o momento em que me sinto tão pequena que peso que poderia ter pagado só meia passagem.
Me afundei na poltrona até a próxima parada, para descer e me entupir de chocolate. A senhora e as crianças foram embora e uma moça de voz bonita se sentou ao meu lado. Sim, viagens são boas pra fazer amizade, mas não, você provavelmente não verá mais aquela pessoa. Eu procurei por ela no facebook. Marina Soares dos Santos, vi na caixa que ela tinha como bagagem. Não encontrei, nunca mais a verei…
Eu voltarei no próximo fim de semana, dia das mães, mas me sinto com saudades como se fizesse um mês. A viagem de volta é mais longa para mim.
Força.
Acho que, não sei, de mês em mês não foi o que planejei. Também fica quase no limite do que eu posso suportar. Sei que essa não é uma boa hora pra chorar, mas é mais forte que eu. Acontece, não dá pra segurar tão bem a água de um mês inteiro. E estou ouvindo aquela música do cara de calça rasgada, ninguém nunca entendeu porque choro com ela, nem eu. Tá, nessas condições eu choraria com qualquer musica.
Essa manhã foi divertida, jogamos futebol como uma família, meninas contra meninos. Perdemos, óbvio, uma sedentária e uma gorda contra uma criança e um gordinho ex-jogador profissional. Eu pude ver pessoas realmente boas andando de skate, mas ainda não sei responder àquela pergunta sobre o motivo de ter parado.
Mas é assim mesmo, sempre que fico feliz, fico triste. Não sei explicar, eu finalmente entendo aquilo que o Danillo me disse uma vez, sobre fazer as pessoas sorrirem e não poder sorrir junto. Eu… só rio. Faço piadas, brincadeiras e as pessoas me acham engraçada, mas nós sabemos que isso não é verdade. Eu o admirava tanto, o quanto era divertido, o como tinha o mesmo humor todos os dias, e pensava: Puxa! Como eu queria ser como ele!.. Se soubesse que ele se sente assim, ou pior, se eu tivesse o conhecimento da dor pra perceber, eu… Eu, não teria rido, não, eu não teria. Eu o abraçaria, embora ele fosse introvertido para contatos físicos, eu teria abraçado, ou apertado sua mão, o que ele permitisse. E então nós sentaríamos no chão e choraríamos juntos, e ele me confessaria algo sobre sua dor, e então gargalharíamos até chorar e tossir. E depois? Tomaríamos chá, sim, é uma ótima maneira de selar a amizade.
Quem sabe eu conseguiria sua admiração, quem sabe… Mas nossa dor estava em idades diferentes, agora eu entendo. Entendo que ele fazia as pessoas darem as risadas que ele não podia dar. Como eu pude? Passei 1 ano gargalhando por ele.
Acredito que ele era um cavalheiro experiente, que montava sua dor muito melhor que eu. Sim, isso eu posso imaginar. Seria divertido apostar corrida com ele. Ficaria feliz e depois triste novamente…
Song of the Day
Stand By Me - Ben E King
Song of the Day
No Particular Place To Go - Chuck Berry
Imagine um grupo de crianças brincando de roda? Não que a tecnologia dê permissão para que as crianças dessa geração façam isso. Está bem, vou corrigir: sabe um grupo de crianças pobres brincando de roda? Não importa. São só crianças brincando e alguém que ficou de fora, olhando, triste. a ciranda vai girando pra longe, se afastando, afastando, girando e girando…
Nesse momento da cena, outro grupo de crianças se revela, cirandando, cantando, de mãos dadas, bem dadas. A criança continua de fora, olhando, espiando. São crianças diferentes, estranhas, cantam outra cantiga, em outro ritmo. Mas ela não entra, apensar de ter espiado, não saiu do lugar.
E os dois grupos continuam cirandando, um independente do outro. A criança no meio, ela gosta das duas cantigas, ela queria, queria participar. ” Quando Ismália enlouqueceu, pôs-se na torre a sonhar… Viu uma lua no céu, viu outra lua no mar. No sonho em que se perdeu, banhou-se toda em luar… Queria subir ao céu, queria descer ao mar…”
Hoje eu só queria dizer como me sinto: de fora. Tenho a dolorosa consciência de a ciranda vai continuar sem mim, as crianças continuam a brincar, sem mim. Não para, não vai parar. Nunca para, nunca para de girar.
Minha dificuldade de manter o que começo é evidente.

